08 fevereiro 2011

Poesia se escreve com T - Prefácio

Poesia se escreve com tesão. Entenda-se: as geografias desembocam no corpo, a mitologia desemboca no corpo, a literatura desemboca no/ trans-bordar do corpo. Flávia Perez faz aqui um inventário poético do olhar feminino frente ao sexo. Os homens têm precedência nesse jogo lúdico, com seus velhos mustangs [“meu carro é vermelho, só uso espelho pra me pentear...”], a “Jovem Guarda” que o diga. Isso na cultura popular, of course. Isso no espaço público da palavra. Não, não esqueço Safo e sua progênie. Mas as lésbicas têm um “aproach” mais vizinho à desfaçatez masculina no verbo. Hoje, a cultura pop celebra [ou “venera”] a declaração do gozo feminino. E é este gozo [com sua quota de desgostos] que aparece aqui, em tons femininos peculiares. Flávia usa vermelho sangue e lilases nas unhas. Peguei leve com ela: usa roxo. O roxo que, por vezes, profana o Antigo Deus Onitroante que gerações seguiram sem, de fato, entendê-Lo. Brinca com as referências sacras das escolhas [e dengos] de Oxum. [Se até a arqueologia e mitologia desembocam no corpo, o que dirá a pura anatomia!].


Há algo a ser destacado aqui: algumas pola-ridades femininas bem explicitadas em textos de bom ritmo. As aliterações e o ritmo casam uma ou outra citação em latim com este elegantemente chulo vernáculo. Talvez algum slogan, ou manchete em inglês. As polaridades às quais aludo se referem à Fémme Fatale, pero no mucho. Pode-mos ver aqui a poeta-gata se travestindo de tigresa, ou dublando a voz [que também é voz femini-na] das mulheres ofendidas pelo desprezo [sim, aquelas que fazem suas macumbas para terem seus homens de volta, perdendo o juízo se não engatinharem de quatro ao seu “remanso”]. Flávia pensa o carnaval na cama com Sade, mas faz Ode ao Gentleman. Nada mais feminino. Como os homens já tão bem brincaram, fazendo lindos solos e quebrando suas Fender Stratocaster nos palcos [ou queimando-as], desde Jimi Hendrix, Flávia dá seu show, mostra as unhas e quebra a guitarra ao fim do espetáculo.
E depois, ronrona. Porque sabe que amanhã há outro solo e outro dedilhado.

Marcelo Novaes

2 comentários:

  1. Texto sublime. O Patife adorou. ;)

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  2. Adorei, amiga...Se o o prefácio já está assim ... Imagino o restante do livro ... Estou ardendo em curiosidade...Sucesso sempre...Bjs !!!

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