09 Novembro 2009

Geodésica


Você diz que nesse andar,
sou horizonte sempre
e não chego ao Algum Lugar.

Que serpenteio, bailo
versejo pelas ruelas,
que sou elipsoidal
e ando em círculos
nas paralelas.

Mas meu corte é a transversal
onde você caminha,
mesmo que eu trance as pernas.

Nem que se apaguem linhas,
ainda assim,
cabem perfeitamente em mim
as suas taras.

Quer saber de verdade, cara,
o que me dana?

Essa distância entre nós
ser muito plana.

O que me estaca, o que me mata,
é a menor distância entre dois pontos,

que é muito chata.


08 Novembro 2009

Fanatismo

Sem qualquer respeito
ou nenhum tato,

sem algo que o impeça
e súbito,

esse clichê de peito cheio invade,

esmorecendo os muros
da ExcentriCidade.

E dói desabrido, chega aos olhos
e num desbordamento tanto,
molha intenso
-corpo escorrendo
ainda
pelas pernas-

É o bicho mais feroz,
um cantochão aflito,
são os meus gritos procurando ecos
nas trajetórias dos comentas mais longínquos

e vibrando inversos,
desarmônicos, malditos.

É ele! Ah, ainda ele!

Um aleijão platônico,
carneando Prometeu na minha frente,

consumindo minha pele, alma,
quintessência jônica.



07 Novembro 2009

Última Mente

Há tempos não tenho pesadelos.

Must be it:
o engano dos suicidas.



30 Outubro 2009

Diagnóstico

Ela é uma mulher muito ocupada.

Acorda, olha através,
além dos olhos da vidraça.

E se esforça,
antes que lhe escape o mote,
em pensar algo

que lhe baste um pouco
- quem sabe um choque
nos que esperam mais
dessa mulher muito ocupada
e forte -

Cansam-me sóis repetidos,

vidraças, garoas, edifícios...

O dia vai administrá-la
mal vesti-la,
agenda-la
come-la rápido no drive-thru da esquina.

Mas ela chega em casa
e ainda precisa aproveitar a noite
para se encher de olheiras
e copiar os mortos

(phodiam mais que ela).

Não é à toa que entre seus dedos
caibam apenas
vidraças repetidas, frias,
novamente sóis, estrelas,
luzes da cidade

e espera.


25 Outubro 2009

Andrógino

E foi inevitável
- como se me soubesse inválida
e me quisesse em festa-

que esse cacho doce
de uva roxa-em-sangue
caísse
nessa boca ávida.

Ai, deus pagão (como eu)
que apaga quem me ultraja,
e tinge em novo,
entalha
a pele-trama
da tela
agora entregue

e finca tatuagem
nos quadris,
nas pernas,
como quem nada quer!

Ai, Baco de Caravaggio,
Evoé, Evoé!!














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