24 junho 2010

Alegoria

A gente nunca
se encaixa,

porque você
me trespassa...

Prefiro quem é assim:

de transbordar
a taça.

20 junho 2010

Orvalhado

Quero afundar no peito do meu Rei dos Sátiros,
arder no acre desse macho alfa,
beijar a pele transparente, mármore
e ver seus dentes me fazendo marcas.

peço por ele em poemas, grito!,
- ventre que espera, obedece, exalta -
faço promessas de ficar em casa
(no canto dos olhos ainda tenho asas)

e ele me chama: "taça, lira, espelho",
despe, cuida, a fêmea da sua raça, 
e toma meu ventre, habita por inteiro 
como se fora um Macho Costas Prateadas.

19 junho 2010

Culpa

Memória é Inferno de gelo intermitente
que arrepia a nuca
feito um cadáver de alguém querido
que tendo morrido longe
é carregado às costas

e até chegar em casa ele flagela a gente
e não sai mais nunca.

(sobre uma música sertaneja)

18 junho 2010

Tesoura

Ah! Pegar a cesta de costura
agora mesmo
e ser bem generosa:

golpear a esmo
no pescoço,
dorso
e lambuzar-me toda
no sangue desse corno manso,

que é pra ele parar de me chamar de esposa.

Mas, ah, se ele me ama,
devo ser meticulosa!

Então calculo aqui comigo
a coragem que preciso
pra cortar um pentagrama
- bem bonito e amoroso -
ao redor do seu umbigo...

31 maio 2010

Sumidouro

Ela tem o corpo sempre aberto,
todo feito de faltas e excessos
e muito pequeno para seus desmandos
- uns gestos -

Nele não cabe tudo o que ela sabe
por isso aqueles grandes olhos
imersos em quasares,
soturnos,
olhos enormes de animal noturno

- se ela é a presa,
há que se cuidar no escuro -

E se por descuido ou por vontade
ela nos sorve
para dentro da voragem
aquele corpo pequenino e sempre aberto
apascenta os pedaços
com a urgência de alguém que morre.

30 maio 2010

Passeio

Quando assim tão alheia,
ao reverso, avessa,
eu não necessito espelhos


e quanto mais me esforço 
por ficar à tona
tanto mais me embrenho.



– água passando escondida
embaixo da montanha,
que apesar de pura
traz bem mais perguntas –



Não peça respostas, 
porque não as tenho.

Post-it

O medo às vezes tenta sabotar
meu apetite,
estancar de vez toda essa sede
aventureira.

E ando refreando atos,
cometendo "e se eu tivesse feito?s"
colecionando quases...

Então rapidamente colo
um post-it
na geladeira:

Você está muito velha  
para segurar sua onda:   
você tá mais que pronta
Ter quarenta agora        
está na moda,              
e você é foda!