18 junho 2010

Tesoura

Ah! Pegar a cesta de costura
agora mesmo
e ser bem generosa:

golpear a esmo
no pescoço,
dorso
e lambuzar-me toda
no sangue desse corno manso,

que é pra ele parar de me chamar de esposa.

Mas, ah, se ele me ama,
devo ser meticulosa!

Então calculo aqui comigo
a coragem que preciso
pra cortar um pentagrama
- bem bonito e amoroso -
ao redor do seu umbigo...

31 maio 2010

Sumidouro

Ela tem o corpo sempre aberto,
todo feito de faltas e excessos
e muito pequeno para seus desmandos
- uns gestos -

Nele não cabe tudo o que ela sabe
por isso aqueles grandes olhos
imersos em quasares,
soturnos,
olhos enormes de animal noturno

- se ela é a presa,
há que se cuidar no escuro -

E se por descuido ou por vontade
ela nos sorve
para dentro da voragem
aquele corpo pequenino e sempre aberto
apascenta os pedaços
com a urgência de alguém que morre.

30 maio 2010

Passeio

Quando assim tão alheia,
ao reverso, avessa,
eu não necessito espelhos


e quanto mais me esforço 
por ficar à tona
tanto mais me embrenho.



– água passando escondida
embaixo da montanha,
que apesar de pura
traz bem mais perguntas –



Não peça respostas, 
porque não as tenho.

Post-it

O medo às vezes tenta sabotar
meu apetite,
estancar de vez toda essa sede
aventureira.

E ando refreando atos,
cometendo "e se eu tivesse feito?s"
colecionando quases...

Então rapidamente colo
um post-it
na geladeira:

Você está muito velha  
para segurar sua onda:   
você tá mais que pronta
Ter quarenta agora        
está na moda,              
e você é foda!              

29 maio 2010

Especiaria

À espera submarina

do peixe - dos - terremotos,
ela sonha seus versos toscos:

alegorias escondidas
em margaridas sulferinas
e antigos signos mortos.

Lá no fundo do barco,
nos porões do que foi,

estão seus olhos de ontem.

Esses velhos marinheiros
repetem o fog sob os cílios.

Incrustrados,
não reconhecem cenário,
pátria, ilha ou parada,

nem quando vêem os filhos.

Com lentidão de sereia,
a mulher que desveste o espelho
à boca soma acalantos.

E guarda que nela se afoguem
outros lábios vermelhos,
inchados
de tanto prazer e pranto.

(poema vencedor do primeiro lugar no
Prêmio Cidadão de Poesia 2009, está em meu livro
LEOA OU GAZELA, Todo Dia é Dia Dela)

28 maio 2010

lebre e tartaruga

Como letras
na hora da pressa.

Minha grafia
não acompanha
a cabeça.

27 maio 2010