31 maio 2010

Sumidouro

Ela tem o corpo sempre aberto,
todo feito de faltas e excessos
e muito pequeno para seus desmandos
- uns gestos -

Nele não cabe tudo o que ela sabe
por isso aqueles grandes olhos
imersos em quasares,
soturnos,
olhos enormes de animal noturno

- se ela é a presa,
há que se cuidar no escuro -

E se por descuido ou por vontade
ela nos sorve
para dentro da voragem
aquele corpo pequenino e sempre aberto
apascenta os pedaços
com a urgência de alguém que morre.

30 maio 2010

Passeio

Quando assim tão alheia,
ao reverso, avessa,
eu não necessito espelhos


e quanto mais me esforço 
por ficar à tona
tanto mais me embrenho.



– água passando escondida
embaixo da montanha,
que apesar de pura
traz bem mais perguntas –



Não peça respostas, 
porque não as tenho.

Post-it

O medo às vezes tenta sabotar
meu apetite,
estancar de vez toda essa sede
aventureira.

E ando refreando atos,
cometendo "e se eu tivesse feito?s"
colecionando quases...

Então rapidamente colo
um post-it
na geladeira:

Você está muito velha  
para segurar sua onda:   
você tá mais que pronta
Ter quarenta agora        
está na moda,              
e você é foda!              

29 maio 2010

Especiaria

À espera submarina

do peixe - dos - terremotos,
ela sonha seus versos toscos:

alegorias escondidas
em margaridas sulferinas
e antigos signos mortos.

Lá no fundo do barco,
nos porões do que foi,

estão seus olhos de ontem.

Esses velhos marinheiros
repetem o fog sob os cílios.

Incrustrados,
não reconhecem cenário,
pátria, ilha ou parada,

nem quando vêem os filhos.

Com lentidão de sereia,
a mulher que desveste o espelho
à boca soma acalantos.

E guarda que nela se afoguem
outros lábios vermelhos,
inchados
de tanto prazer e pranto.

(poema vencedor do primeiro lugar no
Prêmio Cidadão de Poesia 2009, está em meu livro
LEOA OU GAZELA, Todo Dia é Dia Dela)

28 maio 2010

lebre e tartaruga

Como letras
na hora da pressa.

Minha grafia
não acompanha
a cabeça.

27 maio 2010

26 maio 2010

Minotauros, ruminantes e roedores

O coelho, em alguns casos,
briga mais que um felino.

Ainda assim custa-me crer
nas mentiras do Rei Minos.

Pobre boi-expiatório:
pode ser tão perigoso
um monstro herbívoro
e sem caninos?

(licença poético-científica sobre a lenda)

De repente escuto: acorda!

Era Leminski
morto de ciúmes
do que está rolando
entre eu e Hilst!

24 maio 2010

Precisa-se

com urgência
de musa inspiradora,
- sexo masculino(claro!) -

Dá-se preferência as de boa aparência,
segundo o gosto da patroa,
- então
pode ser que nem precise ser tão boa -


paga-se bem:
em poemas desabridos, controversos
(que não podem ser mostrados
aos seus netos)

folga:
só nos dias santos (vade retro!)

pra trazer desassossego
e dormir comigo em sonhos.

mas aviso: com alguma referência
não consegue o emprego.